A importância da fisioterapia neurológica na reabilitação de pacientes com AVC

Em Portugal, entre 2009 e 2019, as doenças cerebrovasculares mantiveram-se como a principal causa de doença, incapacidade e morte. O relatório da Stroke Alliance For Europe (SAFE) e European Stroke Organization (ESO) (2018) sobre o Acidente Vascular Cerebral (AVC) na Europa, refere que é necessário um grande esforço para a melhoria da prestação de cuidados às pessoas com sequelas de AVC. No Plano de Ação Europeu prevê-se um aumento de trinta e quatro por cento (34%)  do número de AVC´s até 2035, como consequência do envelhecimento da população. Em toda a Europa, o número de indivíduos a viver com sequelas de AVC deverá aumentar cerca de um milhão, atingindo 4 631 050 milhões.

O Fisioterapeuta em condições neurológicas realiza a avaliação da qualidade do movimento, da ativação muscular, da coordenação do movimento, do tónus e da sensibilidade. Registando depois as alterações no controlo postural, no equilíbrio e a sua influência sobre a capacidade para a utilização do tronco, do membro superior e inferior em tarefas funcionais como por exemplo o alcance e preensão, ou a capacidade para estar sentado, andar ou subir e descer escadas.

Cruzando a informação obtida durante a avaliação em Fisioterapia com o local e extensão de lesão, a idade, o género, as capacidades cognitivas, as capacidades de linguagem e fala, estabilidade clínica, procura delinear fatores de bom ou mau prognóstico, objetivos de intervenção e seleciona as estratégias que melhor se adaptam à recuperação dos sistemas afetados pela lesão. De facto, dependendo das áreas e sistemas cerebrais afetados o Fisioterapeuta em condições neurológicas prepara tarefas, contextos e seleciona estratégias de intervenção específicas e que “coloquem em jogo” ou estimulem as áreas lesadas. Se o AVC ocorreu nos ramos da artéria cerebral posterior, as sequelas motoras serão diferentes daquelas que ocorrem quando o AVC que ocorre nos ramos da artéria cerebral média. Por isto, é importante que se realize uma avaliação específica e que se devolva essa informação à família e equipa multidisciplinar para que todos possam participar e compreender o programa de reabilitação.

Os estudos científicos, as formações e a experiência que reuni nesta área, têm vindo a demonstrar que as estratégias ativas (a pessoa com AVC a desempenhar ativamente as diferentes tarefas, com ou sem facilitação do terapeuta) têm melhores resultados que os tratamentos passivos. E também sabemos que em fases crónicas, quando decorre mais de um ano após o AVC, é importante que a pessoa encontre estratégias funcionais complementares e se mantenha ativa para manter os seus níveis de autonomia. Mas também para se manter saudável e reduzir os riscos de desenvolvimento de doenças associadas ao sedentarismo. As pessoas com sequelas de AVC tendem a ser mais sedentárias e a isolar-se, sendo que a Fisioterapia poderá contribuir para reduzir os efeitos deste ciclo.

A Fisioterapia em condições neurológicas, mediante os objetivos do programa de reabilitação, pode desenrolar-se em contexto clínico, domiciliar ou profissional.

Em suma o Fisioterapeuta em condições neurológicas tem as competências para interpretar a informação de outras áreas da saúde, realizar a avaliação em Fisioterapia e estabelecer o raciocínio clínico necessário para ajudar o utente e sua família a estabelecer objetivos significativos para si, mediante o potencial esperado, implementando as metodologias de intervenção mais adequadas ao perfil da pessoa com sequelas de AVC. Isto implica um tratamento específico e individualizado adequado a cada pessoa. O compromisso de explorar todo o potencial que a pessoa tem a cada sessão e a certeza de que se está a tratar a pessoa e não a doença.

Fisioterapeuta Pedro Almeida
476 | Ordem dos Fisioterapeutas

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