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Como Educar as Crianças na Era Digital?

29 Nov 2022

Vivemos numa era de absoluta desconexão, embora estejamos cada vez mais ligados e “conectados” através do universo online. Estamos a ser conduzidos para um estado de abandono devido ao ritmo acelerado diário, ao individualismo, a feridas internas de culpas, medos, raivas, a uma cultura narcísica e ao hedonismo.

Estudos demonstram que a maior influência na felicidade humana é o afeto, o contacto, um abraço… o ser humano é dependente de relacionamentos, o toque é cura para a alma humana.

Cada vez mais observamos um abandono de crianças, jovens e adolescentes que ficam horas diárias, dia após dia em frente a um monitor.

Nós adultos/pais, pensamos que os nossos filhos estão distraídos e divertem-se, mas, na verdade, por de trás desse comportamento o filho está a distrair-se de uma dor, da falta de conexão, de contacto, de afeto, de familiaridade e direção.

O vicio entra onde há uma dor e as nossas crianças estão num grito silencioso a pedir ajuda. Por de trás de uma criança viciada no digital há uma criança desesperada de ser cuidada.

Cuidar do outro é uma maneira de cuidarmos de nós. Por de trás da dificuldade de criar uma conexão real, de dar um limite real, de preservar os seus valores, está um pai e uma mãe fragilizada que acaba por ter um posicionamento parental demasiado permissivo.

Muitas vezes, pais querem ser “amigos” dos filhos ou têm a crença de que o papel do pai e da mãe é fazer os seus filhos felizes, acabando por eles próprios ficarem perdidos. É importante o adulto fazer uma simples reflexão “eu estou a ser um pai e uma mãe que se respeita?”, “eu estou a ser o pai e a mãe que tenho orgulho em ser?”.

Dá para resolver duas questões numa, o adulto ao cuidar de uma maneira diferente do seu filho vai aprender a cuidar de uma maneira diferente de si próprio.

É importante entender a natureza e a essência do que é que um filho realmente precisa para se desenvolver plenamente. Se não entendermos as propriedades e características de um bom desenvolvimento da criança o adulto perde-se.

De onde vem a nossa força vital? Vem de vínculos, de toque, de limites, de afeto, do sono… portanto se compreendermos esta natureza das necessidades humanas conseguimos aceitá-las e comandá-las, ajustando-nos a uma vida mais saudável e equilibrada.

Educar é tudo aquilo que gera Saúde ou Crescimento nos filhos, não é sobre bater, castigar, gritar, ignorar, ameaçar. Filhos respeitam pais e mães que se respeitam. A partir do momento que precisa de gritar, bater ou ameaçar o adulto está a humilhar-se e a retirar autoridade. É sobre comunicação, presença, gestão, negociação, limites e afeto.

Portanto, educar os filhos na era digital é educar para uma mentalidade direcionada para a saúde, direcionar todo o comportamento para um pensamento refletivo e ajudar o filho a desenvolver e a construir essa autonomia de pensamento.

O uso do monitor deve ser equilibrado, dos zero aos seis anos a criança não deve ter acesso a qualquer tipo de equipamento tecnológico. A criança precisa de brincar, pintar, saltar, correr, dançar. Tenha sempre no carro um bloco de papel de desenho, canetas coloridas, plasticina e um jogo. Depois dos seis anos a criança pode ter acesso trinta minutos por dia. Dos seis aos doze anos deverá usar o digital de trinta minutos a uma hora. Após os doze anos de idade o jovem deverá usar apenas uma hora diária no máximo.

Felicidade é uma construção diária de uma vida com valores, limites e amor. Há uma confusão entre prazer e felicidade e, por isso, muitas vezes acabamos por aceitar, dar, permitir, pagar… numa tentativa de encontrar atalhos para que o filho seja feliz a qualquer custo. Nesta tentativa o valor do pai, mãe, adulto, acaba por ficar diminuto porque ele próprio não se ouviu, deixou de dar crédito a si, em algum momento perdeu-se. Portanto, é mais do que necessário encontrar caminhos, referências, ajuda para recriar valores, regras, afeto e limites. É importante o adulto confiar em si, ouvir-se e decidir querer ser melhor, fazer melhor, aprender mais e entregar-se para uma mudança efetiva de muito mais felicidade e amor consigo mesmo e com os seus.

Psicóloga Rute Barcelos
7758 | Ordem dos Psicólogos