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Cuide da sua voz

27 Set 2022

O Diogo é cantor. Desde que esteve doente não consegue atingir notas mais agudas, a voz falha. Tem vários concertos agendados e teme não conseguir corresponder ao que lhe é exigido. Já a sua amiga e colega de profissão, Sara, está preocupada porque sente a sua voz muito rouca após cada concerto e tem cada vez mais dificuldades em recuperar.

A Patrícia é professora e todos os dias chega a casa rouca. No ano letivo anterior chegou a estar de baixa mais de um mês por ter perdido a voz.

O Hélder sofre de azia. É frequente ter a sensação de ardor no peito. Ultimamente sente a voz rouca e irritada, sobretudo ao acordar, pigarreando ao longo do dia em busca de alívio para esta sensação.

A D. Almerinda está reformada e ultimamente tem sentido a voz a ficar progressivamente mais fraca. Inclusivamente tem dificuldades em participar no coro da igreja com as amigas.

Embora distintas, todas estas pessoas têm em comum a perda total ou parcial da sua voz, e todo o impacto que tal representa no seu quotidiano, influenciando grandemente não só a sua atividade profissional, mas também a capacidade de participação em tarefas lúdicas dia-a-dia.

Qual a causa das alterações vocais?

As alterações vocais são frequentemente causadas por comportamentos de mau uso e abuso vocal. Por exemplo: falar muitas horas seguidas sem pausas, gritar, não realizar uma higiene vocal adequada, falar em ambientes barulhentos e pigarrear.

Em pessoas com mais idade a perda de tonicidade na musculatura do aparelho fonador poderá também conduzir a alterações da qualidade vocal. Esta alteração, que é decorrente do processo normal de envelhecimento denomina-se presbifonia.

O que é possível fazer face a este cenário?

Em primeiro lugar, realizar uma avaliação com o otorrinolaringologista de modo a perceber as alterações nas estruturas que produzem a voz.

De seguida procurar um terapeuta da fala especializado nesta área, que irá dotar a pessoa de técnicas e estratégias para a recuperação da qualidade vocal. Cada caso é um caso e a intervenção deverá ser definida e estruturada, tendo em vista o tipo de patologia e o grau de exigência vocal de cada pessoa.

Então basta tratar as cordas vocais?

 Geralmente não. Enquanto seres humanos todos os nossos sistemas interagem e influenciam-se mutuamente. A voz não é exceção à regra.

Eis dois exemplos que ilustram esta situação:

Uma pessoa com elevada tensão cervical, e presença de dor frequente, provavelmente irá apresentar tensão fonatória que terá repercussão na qualidade vocal e no aparecimento de alterações orgânicas vocais. Portanto esta tensão cervical deverá ser também tratada. E não apenas enquanto sintoma. É importante saber se esta advém, por exemplo, de uma postura desadequada e, nesse caso poderá ser útil a realização de reeducação postural.

Outra situação frequente é a existência de refluxo gastroesofágico, que impactará de forma negativa toda a mucosa em redor das pregas vocais provocando sensação de ardor e desconforto. Nestes casos é necessária uma intervenção mais alargada, visando mais do que a inibição do refluxo, a correção dos hábitos alimentares que poderão estar a potenciar a ocorrência do mesmo.

É possível a reversão total do problema vocal?

Depende da causa das alterações, mas em muitas situações é possível. Porém é necessário o comprometimento com a realização da intervenção não só em contexto de sessão, mas também diariamente, em casa. Além disso é também importante o compromisso com a mudança de estilo de vida e a abolição dos velhos hábitos que se revelam nocivos.

Foi-me recomendada cirurgia para remoção de nódulos. Nesse caso a terapia da fala é dispensável?

Não. O aparecimento de nódulos nas pregas vocais encontra-se associado à presença de comportamentos de mau uso e abuso vocal. Se for realizada cirurgia sem a ocorrência de uma consciencialização e alteração destes comportamentos aumenta a probabilidade de recidiva do problema.

Terapeuta da Fala

Rita Gonçalves
C-038680181 | ACSS